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Nota Técnica -
CFP
Psicologia no Ensino Médio: desafios e propostas
Ângela
Soligo
Diva Conde
Marcelo Moreno
Sérgio Leite
Roberta Azzi
A Psicologia, como
campo de conhecimento, esteve desde o século
XIX, início da modernidade, atrelada aos
desafios que se colocavam para a educação,
pois veio configurando, por meio dos seus
estudos, parâmetros de normalidade, desenvolvimento
e aprendizagem aceitáveis, em sociedades
cambiantes que miravam, com a universalização
do ensino escolar, a construção de mentalidades
que fizessem o mundo adentrar na nova ordem,
na ordem do progresso tecnológico e das
culturas voltadas ao futuro. Aparte as consistentes
críticas que hoje se fazem aos modelos de
sujeito naturalizados e universalizados,
com as quais compartilhamos, havia desde
aquela época a consciência de que não se
poderia pensar a educação, a formação humana,
que desconsiderasse a compreensão das dimensões
psicológicas e psicossociais dos homens,
tarefa a que, desde seus primórdios, propõe-se
a Psicologia.
Situar o ensino de
Psicologia significa retomar a constituição
da Educação no Brasil, como um sistema formal.
Para Massimi (1993) conhecimentos psicológicos
estão presentes em teses da Faculdade de
Medicina e de Direito, que são estabelecidas
no início do século XIX, e logo passam a
compor os currículos da iniciante educação
secundária, especialmente nos cursos de
formação de professores.
Na formação acadêmica,
aqui focada na realidade brasileira, o ensino
de psicologia esteve e está presente nos
cursos pertencentes à área de educação (pedagogia
e licenciaturas), da saúde e do direito,
tendo ocupado fundamental papel em alguns
deles - como na formação de professores
- e hoje ampliado sua inserção em muitos
outros domínios. (Mrech, 2001)
Nos cursos profissionalizantes
de nível médio, a Psicologia compõe os currículos
de grande parte deles, em especial aqueles
voltados ao magistério e ao ensino de modo
geral, à saúde, à comunicação, administração
e serviços de atendimento em geral. (Moreno,
1996)
Há, portanto, saberes
psicológicos que se têm mostrado relevantes
para a formação de jovens que conduzem sua
vida escolar no rumo de uma profissão imediata,
que responda às necessidades de seu cotidiano.
No ensino médio regular,
a psicologia esteve presente de diversas
formas, em distintos momentos históricos.
A partir de 1850, passa a fazer parte, como
uma unidade programática - Psychologia,
da cadeira de Filosofia, no Colégio Pedro
II (Vechia & Lorenz, 1998), criado em 1834,
para ser um parâmetro da educação secundária
nacional. Em 1890, passa a compor o currículo
das Escolas Normais (Massimi,1993), nos
programas de formação de professores. Na
Reforma Francisco Campos, consolidada em
1932, ela compõe o currículo complementar
para os estudantes que desejassem ingressar
nos cursos superiores de medicina, advocacia,
engenharia, arquitetura, farmácia, odontologia
(Chagas, 1980; Romanelli (2001).
Na Reforma Capanema,
em 1942 quando o segundo ciclo do ensino
secundário se divide em duas grandes categorias
-clássico e científico, o ensino de Psicologia
deixa de ser nomeado no currículo, embora
esteja presente como uma unidade no programa
de Filosofia, recomendado para a segunda
e terceira séries do curso clássico, e para
a terceira série do científico (Horn,2001).
Na formação de professores é parte do currículo
tanto nas Escolas Normais Regionais, em
nível ginasial, como nas Escolas Normais,
que correspondiam ao segundo ciclo da educação
secundária (Romanelli,2001). Nos anos sessenta,
a Lei 4024/61 inclui a Psicologia como uma
das disciplinas optativas para compor o
currículo do segundo ciclo -clássico e colegial.
Essa condição também é oferecida para os
cursos colegiais de comércio (Técnico de
Contabilidade, Técnico de Administração,
Técnico de Estatística, Técnico de Comércio
e Propaganda), mas é disciplina obrigatória
no curso de Secretariado. Também é indicada
como disciplina optativa para o ensino industrial,
mas é obrigatória para os três anos de formação
de professores, de acordo com a Portaria
26-BR, de 07/3/62. É ainda na década de
60 que a Portaria 10, de 1964, define, no
âmbito da regulamentação da formação de
professores para a educação secundária,
quem ensinará Psicologia para os secundaristas:
os Licenciados em Filosofia, os Licenciados
em Pedagogia (para a Psicologia da Educação),
e os Licenciados em Psicologia, habilitados
ao ensino de Psicologia "em todos os ramos".
Também nesse período,
o ensino secundário é organizado em dois
ciclos: o ginasial (4 anos) e dois cursos
paralelos - o clássico e científico (3 anos)
e o magistério (4 anos); retira-se a Psicologia
e a Sociologia do currículo, permanecendo
somente a Filosofia. Pela Lei de Diretrizes
e Bases de 1961, três partes compõem o currículo
do Ensino Médio: uma nacional, com disciplinas
optativas, uma regional e outra local. A
psicologia passa a figurar como disciplina
optativa, bem como outras de caráter geral
como Direito Usual, Elementos de Economia,
Puericultura, Literatura, entre outras (Moreno,
1996).
Em 1971, com a LDB
5692/71, que institui o ensino profissionalizante
no segundo segmento da educação secundária,
composta em 1o e 2o graus, inclui a Psicologia
como disciplina obrigatória em pelo menos
quatro de suas habilitações: técnico Assistente
de Administração, técnico em Publicidade,
técnico em Secretariado e técnico em Comercialização
e Mercadologia, além de permanecer integralmente
na habilitação Formação de Professores.
As disciplinas Filosofia, Sociologia e Psicologia
são retiradas, em seu conjunto, do currículo
escolar, sendo este período conhecido pelo
estabelecimento da profissionalização compulsória.
Em 1982, com a LDB 7044, a Psicologia volta
como disciplina da "parte diversificada"
do currículo.
O tecnicismo, como
princípio e ênfase que marcam esses períodos,
resultou no esvanecimento da importância
da formação humana integral, tornando o
ensino de segundo grau um conjunto desarticulado
de saberes acadêmicos, separados em áreas
estanques. Daí, resulta uma supressão ou
quase supressão das humanidades da formação
dos jovens, e, hoje, os próprios discursos
oficiais, presentes na legislação brasileira,
clamam pelo resgate de uma formação em que
se valorize o humano em sua integralidade,
e apontam para a importância do resgate
das disciplinas da área humana nos currículos
do nível médio de segundo grau.
A LDBEN 9394/96,
de 1996, organizada em Parâmetros Curriculares
Nacionais, fixados em três grandes áreas
de ensino- Linguagens e Seus Códigos, Ciências
da Matemática e da Natureza e Ciências Sociais,
menciona, entre outros campos de conhecimento,
a Psicologia como um dos saberes a serem
incorporados aos currículos de nível médio
da educação nacional, referindo:
"A Psicologia,
cujo desenvolvimento histórico alcançou
grande significação no século XX, construiu
um conhecimento sistematizado, a partir
de conceitos e procedimentos, que vem
tendo um impacto sobre o pensamento contemporâneo,
articulando-se com a Semiologia, a Linguística,
a Antropologia, a Sociologia, a História,
a Medicina e a Educação. A produção de
seu conhecimento contribui para a compreensão
dos processos humanos envolvidos no desenvolvimento
cognitivo e afetivo, na aquisição da linguagem,
na aprendizagem, na interação social e
na constituição da identidade". (MEC/SEMTEC,2002)
Em seu artigo 35,
a LDBEN 9394/96 nos desafia a pensar uma
educação voltada para a formação ética e
cidadã, para a autonomia intelectual, para
a integralidade do humano. Aponta, portanto,
para uma dimensão que se funda no trinômio
reflexão, criação, transformação.
Reconhece-se, ao
se constatarem os desastres ambientais e
sociais produzidos pela humanidade, o recrudescimento
da intolerância, que marca as relações entre
os cidadãos e entre os povos, o encolhimento
da ética nas relações sociais, institucionais
e transnacionais, além da ausência, na educação
dos homens, da dimensão humana, que leve
à reflexão, à relativização das crenças,
à superação de preconceitos, às considerações
de natureza ética no avanço do conhecimento.
É nesta perspectiva
que a Psicologia vem discutindo sobre o
seu papel como disciplina do ensino médio,
que contribua para a formação crítica, autônoma
e ética da juventude brasileira. Neste sentido,
merece destaque o processo que se desencadeou
no Estado de São Paulo, na década de 80,
organizado pelo Conselho Regional de Psicologia
e pelo Sindicato dos Psicólogos do Estado,
em parceria com a CENP, da Secretaria de
Educação do Estado, que resultou em um conjunto
de documentos que deveriam ser os norteadores
para o ensino de Psicologia no Nível Médio.
Neles, já se reconhecia a importância da
formação humana e integral dos jovens, e
se levantavam grandes questões para as quais
a Psicologia teria relevantes contribuições
a apresentar, como as discussões sobre a
naturalização da conduta, a questão da afetividade,
da relação profissão-trabalho, da alienação,
entre outras. A temática catalisadora, naquele
momento, era a questão da alienação.
Temos, hoje, mais
de 150 anos de produção de conhecimentos
em interface com a realidade educativa,
e nos deparamos com o afastamento desse
campo de conhecimentos na educação dos jovens.
Passamos, ao longo desses anos, por severas
críticas à Psicologia, que a situavam na
seara da patologização, da naturalização,
da aceitação e manutenção do status quo,
a partir da compreensão da escola como instituição
que reproduz e reforça as relações de poder.
A experiência de São Paulo veio mostrar
quanto a própria psicologia foi construindo
outros caminhos, que se afastam do modelo
médico-biologizande, na direção de uma concepção
sócio-histórica de sujeito, que se constitui
na cultura, nas relações sociais, na diversidade
- sujeito plural, multidetermindado, datado.
Gramsci (1978) nos
ensinou que a escola não é, como se acreditava,
um espaço absoluto dos poderes hegemônicos,
mas, sim, espaço da contradição, em que
distintos atores sociais, com diferentes
visões de mundo e localização na dinâmica
social, circulam e interagem, e dessa circulação
e interação constroem-se, ao mesmo tempo,
dialeticamente, a aceitação e a resistência,
a manutenção e a mudança. Para pesquisadores
do currículo escolar como Young (1989),
Apple (1982), Moreira & Silva 91997), o
currículo escolar é um campo de disputas
políticas onde os interesses sociais hegemônicos
são representados. Para Goodson (1997)
"Investigações
históricas sobre as disciplinas escolares
mostram que o currículo do ensino secundário,
longe de ser uma unidade estável e construída
imparcialmente, é, de facto, um terreno
extremamente contestado, fragmentado,
e sempre em mudança. A disciplina escolar
é construída social e politicamente e
os actores envolvidos empregam uma gama
de recursos ideológicos e materiais à
medida que prosseguem as suas missões
individuais."
Portanto, nessa escola
- lugar da contradição -que busca, ao menos
no texto da lei, a construção do sujeito
autônomo, cidadão e crítico, cabe pensarmos
uma disciplina de psicologia que concebe
o homem como sujeito de sua história e da
cultura, que se constitui na relação com
os outros homens e que, por meio da apropriação
dos conhecimentos acumulados pela humanidade
e do processo de reflexão, é capaz de transformar-se
e transformar sua realidade. Uma Psicologia
que possibilite aos jovens uma leitura mais
adequada das grandes questões e dilemas
que atravessam seus espaço-tempos e marcam
suas vidas, que promova processos reflexivos
que levem à superação dos modelos impostos
pela exacerbação da lógica do consumo, pelo
culto ao indivíduo - em oposição ao coletivo,
aos outros - que marca o neoliberalismo,
pela desumanização das relações humanas.
Tal perspectiva implica
a superação dos modelos tradicionais, centrados
em teorias estanques e temáticas desconexas
da realidade. Implica, principalmente, a
superação do modelo médico-biologizante,
situando os homens - plurais, concretos,
incompletos - no quadro multideterminado
que marca a nossa existência.
Caminhar na direção
dessa perspectiva exige recolocarmos o lugar
das teorias psicológicas: de parâmetros
naturalizados e universais do humano, as
teorias devem ser entendidas como tentativas
de resposta a grandes questões humanas que
marcaram distintos lugares e tempos. Elas
surgem, portanto, a partir da angústia dos
homens-cientistas acerca das questões de
seu tempo. São respostas parciais, que se
evidenciaram significativas como tentativas
de compreensão do humano. Pensadas a partir
dos dilemas humanos, as teorias podem ser
compreendidas na sua relação com a realidade,
como leituras que fundamentam a compreensão
sobre as questões e problemas que atingem
as juventudes atuais.
Da mesma forma, algumas
questões destacam-se hoje como elementos
que marcam o cotidiano, merecem atenção
e encontram na psicologia conhecimento relevante
produzido. No mundo globalizado, na sociedade
do conhecimento, conformam-se, hoje, distintas
identidades adolescentes, que expressam
na escola diferentes desejos e expectativas
e engendram modos de interação que refletem
suas experiências na realidade, bem como
suas representações de si e do mundo (Enguita,
2004; Soligo, 2002). Identidades que se
constituem por meio dos novos laços sociais,
das transformações que ocorreram nas instituições
tradicionais da sociedade, das novas formas
de comunicação.
A produção da sexualidade
a partir dos papéis sociais de gênero, por
meio das ferramentas culturais, bem como
das representações, preconceitos, conflitos,
afetos e possibilidades de ser; a cultura
da violência e a alienação, o mundo do trabalho,
em que se inserem as discussões sobre as
imagens das profissões, as expectativas,
o choque da realidade, são temáticas que
hoje povoam a realidade brasileira, para
as quais a Psicologia apresenta novas e
instigantes leituras.
A escola, como lugar
do conhecimento e das relações sociais que
se produzem em seu interior, destaca-se
como temática importante, em que emergem
pontos como a dialética disciplina-indisciplina,
as relações aluno-aluno, o preconceito,
o bullying. Mas também se pode pensar a
escola como lugar de produção de conhecimentos
e de sentidos, na relação aprendizagem -
estudo.
A disciplina Psicologia,
no Ensino Médio, configura-se como área
relevante do conhecimento, portanto, não
apenas porque contribui, ao lado e em interação
com outros saberes para reforçar, juntamente
com a Filosofia e a Sociologia, uma ênfase
humanista na formação do adolescente/jovem,
mas porque possibilita, a partir de suas
distintas abordagens teóricas da realidade
e das contribuições da pesquisa contemporânea,
a construção de reflexões compartilhadas
- professor e alunos - acerca das subjetividades
adolescentes constituídas na sociedade e
na cultura, dos conflitos e impasses diante
das contradições entre os desejos e potencialidades,
por um lado, e os entraves e cominhos tortuosos
hoje trilhados por esses sujeitos. O papel
do professor de Psicologia é, portanto,
não o daquele que analisa a realidade e
apresenta ao aluno o resultado de suas reflexões,
mas o do professor que compartilha o conhecimento
com seu aluno e, nesse processo, favorece
a reflexão, a problematização e a construção/elaboração
autônoma e coletiva de conhecimentos por
parte de seus alunos, a partir do enfoque
da Psicologia.
A perspectiva que
se apresenta possibilita interface com as
contribuições de outras áreas das ciências
humanas e sociais. - filosofia, sociologia,
história, geografia. No entanto, a partir
da LDBEN 9394 de 96, a Psicologia deixa
de compor os currículos do ensino médio,
dando-se ênfase apenas aos conteúdos de
sociologia e filosofia. Não se nega, nem
se poderia fazê-lo, a relevância dessas
áreas para a formação do jovem. Porém, Entretanto
há algo que constitui a identidade do conhecimento
psicológico, que nos define e distingue
- a subjetividade; que se constitui nas
relações sociais, a partir de seus determinantes,
que constrói sentidos e éticas para o mundo;
e que, para ser compreendida, demanda os
conhecimentos psicológicos.
Uma formação mais
completa exige a presença de diversos saberes
que colaboram para uma compreensão mais
completa e complexa da realidade. A dimensão
subjetiva dos fatos e do próprio desenvolvimento
dos sujeitos não pode estar ausente, isto
é, é preciso compreender os sentimentos,
emoções, significados, registros de memória,
valores, idéias que vão se constituindo
acompanhando e viabilizando o movimento
da realidade. Conhecer, refletir e considerar
estes aspectos psicológicos permitem que
jovens em formação possam fazer uma leitura
do real que considere o que para muitos
é invisível: o sujeito que é protagonista
na cena social. Um sujeito que pensa, sente,
se emociona, tem idéias, tem história e
memória e estes elementos são fundamentais
para o conhecimento da realidade com suas
lógicas singulares.
Em todos os espaços
onde nos encontrarmos e em todos os movimentos
de vida coletiva, é preciso ir além da aparência
e sermos capazes de perceber e conhecer
a expressão da subjetividade que é também
determinante importante da realidade, portanto,
O conhecimento do mundo psicológico permite
e amplia o conhecimento da sociedade, este
espaço de vários e diferentes sócios, sujeitos
constituídos e constituintes do conjunto
e do cenário onde vivemos.
Em um momento em
que tanto se fala em educação, em que esta
aparece como prioritária, central, tanto
nos discursos oficiais quanto acadêmicos,
cremos que devemos superar os interesses
corporativos, separatistas, em que certas
áreas parecem se sobrepor a outras, e tomar
o aluno como meta - a sua formação integral,
humanista, crítica, emancipadora. Neste
momento, urge a retomada da Psicologia no
ensino médio, como ciência humana, como
ciência da subjetividade, dos homens em
construção.
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