Esta publicação ABEP, na forma de
Boletim Especial, pretende servir de veículo rápido de divulgação sobre pontos
de vista em debate sobre temas especiais para a comunidade da Psicologia, como
é o caso das mudanças no ensino superior.
Textos
As mudanças no ensino superior brasileiro
em discussão no interior do FENPB: informes sobre atividades já realizadas
Roberta Gurgel Azzi
Reforma Universitária: alguns critérios
para análise
Ana Mercês Bahia Bock
Reforma Universitária, Universidade Nova e
o futuro da Psicologia
Raquel S. L. Guzzo
As mudanças no ensino superior brasileiro em
discussão no interior do FENPB: informes sobre atividades já realizadas
Roberta Gurgel Azzi
ABEP/UNICAMP
A Associação Brasileira de Ensino de Psicologia (ABEP)
coordena, no interior do Fórum Nacional de Entidades da Psicologia Brasileira
(FENPB), um Grupo de Trabalho (GT) denominado "Reforma Universitária", que
assumiu como tarefa debater as propostas e ações existentes sobre o ensino
superior.
Discutir as mudanças do cenário do ensino e formação no
nível superior tem sido preocupação da categoria dos psicólogos. Nesse sentido,
propostas foram formuladas e aprovadas como teses durante os Vº e VIº
Congressos Nacionais da Psicologia (CNP). No VIº Congresso, ocorrido em junho
deste ano, o assunto foi apresentado e aprovado nos termos transcritos abaixo.
Tese 80
Tema da Tese
FORMAÇÃO - Reforma Universitária
Diretrizes
Frente às propostas de Reforma Universitária, defender a
qualidade da formação dos psicólogos, de forma que . esta contribua para a
superação das desigualdades sociais e para o atendimento das demandas de
realidade social brasileira.
Encaminhamentos
a) Fazer gestões, em parceria com a Associação
Brasileira de Ensino de Psicologia (ABEP) e Fórum de Entidades da Psicologia
Brasileira (FENPB), junto aos órgãos responsáveis pelas políticas de ensino
superior, posicionando-se em relação à qualidade da formação dos psicólogos.
b) Atuar em espaços do controle social que defendam o
ensino público, gratuito e de qualidade socialmente referenciada.
c) Fazer gestão junto à ABEP, a fim de analisar e
discutir a Reforma Universitária em curso, e organizar Seminário Nacional para
a produção de documento sobre a posição do Sistema Conselhos, frente a essas
propostas.
(VI CNP - Resultado Final, p56)
Anteriormente ao VIº CNP, o Fórum aprovou a realização
de um Seminário sobre o assunto e incumbiu a ABEP de organizá-lo. O evento,
denominado "Psicologia Debate a Reforma Universitária", foi realizado na
Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), no dia 27
de junho de 2007, fruto da parceria entre Fórum de Entidades Nacionais da
Psicologia, Conselho Federal de Psicologia (CFP), ABEP e Faculdade de Educação
da UNICAMP. O Seminário contou com o apoio da Associação Nacional de Pesquisa e
Pós-Graduação em Psicologia (ANPPEP), Associação Brasileira de Psicologia
Escolar e Educacional (ABRAPEE) e Associação Nacional de Pós-Graduação em
Educação (ANPED), esta última por meio da participação do GT20, denominado
"Psicologia da Educação". Esse evento foi pautado em vários temas e se
estruturou a partir de mesas temáticas. Duas mesas gerais abordaram a proposta
de reforma - "Reforma Universitária: diferentes olhares" e "Focando alguns
aspectos presentes na Reforma proposta e suas implicações para a qualidade de
ensino" -, e uma terceira mesa abordou anúncios sobre repercussões nos cursos
de psicologia, a partir da proposta em discussão. Esta terceira mesa
intitulou-se "Impactos da Reforma Universitária aos cursos de Psicologia:
anúncios possíveis" e foi composta por quatro psicólogos e um aluno em
formação, todos representantes de entidades nacionais (quatro delas da
Psicologia). Essas entidades foram: CFP, ABEP, Associação Nacional de Pesquisa
e Pós-Graduação em Psicologia, Associação Nacional de Pós-Graduandos e
Coordenação Nacional dos Estudantes de Psicologia(1).
Na reunião seguinte ao evento, o GT do Fórum foi
constituído. Já no evento seguinte, o tema foi debatido na mesa "Reforma
Universitária: Debates sobre mudanças propostas", ocorrida durante o VIº
Encontro Nacional da ABEP, em setembro deste ano. Essa mesa foi composta pelas
seguintes entidades/palestrantes: Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia/
Maria Cristina Joly, Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em
Psicologia/ Raquel Guzzo, Associação Nacional de Pós-Graduandos/ Eric Calderoni
e Coordenação Nacional dos Estudantes de Psicologia/ Brisa Campos.
Na seqüência, foi no evento da Associação Brasileira de
Psicologia Social (ABRAPSO), entre 31 de outubro e 3 de novembro que nova mesa
foi proposta, e as falas lá apresentadas são as que integram esta publicação.
Em 8 de novembro de 2007, o FENPB realizou reunião e um
novo encaminhamento para a discussão foi feito, após o relato das tarefas
realizadas desde sua criação. Foi debatida e aprovada a subdivisão interna do
GT da "Reforma Universitária", para agilizar e focar na preparação de temas
específicos. Ou seja, esse GT vai se manter, mas em seu interior estão sendo
compostos subgrupos, denominados "Gtzinhos". Os "Gtzinhos" já formados são:
SINAES, Universidade Nova, Universidade Aberta, PROUNI e REUNI. Os grupos de
discussão serão compostos por pessoas indicadas pelas diversas entidades do
Fórum e ainda estão em processo de constituição.
É desejável que as entidades do Fórum indiquem pessoas com disponibilidade e
interesse em participar das discussões. As tarefas iniciais elencadas para os
"Gtzinhos" são: sistematização de conjunto de textos sugestivos para leitura e
discussão de pessoas interessadas em adentrar o debate; indicação de tópicos
para discussão; propostas de vídeo conferências; e organização de eventos.
Pretende-se programar novo evento para o ano de 2008, para que os assuntos dos
diferentes "Gtzinhos" sejam debatidos e analisados em conjunto, revelando suas
nuances e desafios para o ensino e a formação em Psicologia. Com certeza, a
tarefa de pensar a educação em nível superior envolverá compromissos dos
envolvidos com ensino-formação-atuação em Psicologia, na produção de
perspectivas sobre o espaço e desenho da formação neste nível de ensino.
Tudo isto deverá ser feito assumido e encarado como
leitura de partida, tendo como meta a construção de um posicionamento e a
efetivação de ações com responsabilidade acadêmica e científica, visando à
diminuição da desigualdade social!
A seguir, o leitor encontrará as apresentações das
colegas Ana Bock e Raquel Guzzo que, com certeza, provocam-nos e nos levam a
boas reflexões, a partir de suas análises e posicionamentos. Mas nosso desafio
é aceitar entrar neste diálogo, o que quer dizer que o debate continua e todas
as contribuições sobre o assunto serão bem vindas. Participe desta discussão!
(1) Parte da gravação do evento e um resumo escrito do
mesmo poderão ser encontrados em breve no site do FENP
Referências
http://www.pol.org.br/publicacoes/materia.cfm?id=172&materia=1227,
acesso em 4 de novembro de 2007.
Reforma Universitária: alguns critérios para análise(2)
Ana Mercês Bahia Bock
CFP/PUC-SP
Esclareço que minha reflexão trará alguns dados e muitas
perguntas, isso porque considero a Reforma Universitária um desafio a ser
enfrentado, pois é preciso reformular a Universidade, mas ainda temos questões
que se referem à melhor forma de fazermos isso.
Começo minha reflexão perguntando: quando falamos de
Reforma Universitária, do que falamos?
Falamos de um projeto de lei (PL 7200/06) que tramita no Congresso Nacional
propondo reformas no sistema universitário brasileiro, resultado de
negociações, debates, embates e controvérsias. Um processo que começou em 2003
com a formação de um grupo de trabalho interministerial. Em 2003, dezembro,
tivemos a primeira versão da reforma; em agosto de 2004, a segunda; em julho de
2005, a terceira; e em maio de 2006, a quarta versão, que por sua vez deu
origem ao PL 7200/06.
Mas, quando falamos de Reforma Universitária, falamos
também de uma série de iniciativas do gover-no já implantadas. São decretos e
medidas provisórias que instituem grande parte das medidas previstas no PL:
Sistema Nacional de Avaliação do Ensino superior (SINAES), PROUNI, Educação à
Distância, Parceria Público-Privado, Educação profissional, inovação técnica,
reserva de vagas.
Os princípios que regem as propostas são de:
. Chamamento para que a educação superior exerça
liderança na construção de um novo projeto nacional.
. Chamamento à Universidade para superação das
desigualdades sociais.
. Democratização da educação, atingindo as camadas mais
pobres da sociedade.
Cabe então uma segunda questão: quais os maiores
problemas nesse campo, para os quais a reforma deve estar voltada?
Segundo dados do Censo de 2005(3) , 8% das
instituições de ensino superior (IES) são Universidades; 92% são Institutos,
Centros e Faculdades isoladas. O sistema é composto majoritariamente por
pequenas ins-tituições.
Em 2006(4) , os dados do ENADE nos permitiram
outras informações:
. Taxa de crescimento de 4,8 novos cursos por dia (a
maior parte destes novos cursos formada por cursos pequenos e pertencentes à
instituições privadas).
. 10,9% dos jovens entre 18 e 24 anos estão na
Universidade. Destes, 3% estudam na Universidade Pública. No entanto, temos
vagas para todos que concluem o ensino médio: 1.860.000 concluem o ensino médio
regular, enquanto existem 2.430.000 vagas no ensino superior. 49% das vagas do
ensino privado superior estão ociosas; 30% das vagas do ensino público, idem.
. 26,7% das matrículas são em instituições públicas;
73,2%, nas privadas;
. 1051 escolas superiores estão concentradas na região
sudeste do país, ou seja, 48,5% das escolas estão em SP, MG e RJ. Para
comparação: 370 escolas (17%) estão no Sul e 388 escolas (18%) estão no
Nordeste; no Centro-Oeste, estão 230 escolas (11%), e, no Norte, 122 escolas
(5%). Temos, assim, uma distribuição que obriga jovens de outras regiões a se
deslocarem para o Sudeste para cursar uma Universidade. Isso impede que jovens
de baixo poder aquisitivo possam fazer a mesma coisa. Temos, assim,
desigualdade de acesso.
Podemos analisar, também, as metas colocadas pelo Plano Nacional de Educação
(PNE)(5) :
. Matricular 30% da população da faixa etária apropriada
até 2011.
. Fazer com que 40% das matrículas sejam oferecidas
pelas IES públicas.
. Reestruturar a avaliação.
. Melhorar os instrumentos de avaliação.
Cabem ainda, em nosso cenário, alguns dados dos alunos
da Psicologia, a partir do ENADE:
. Enquanto 50% da população brasileira têm renda até
três Salários Mínimos, na Psicologia temos apenas 27% dos ingressantes e 14%
dos concluintes inclusos nessa faixa.
. Se tomarmos a faixa de 10 Salários Mínimos, onde estão
concentrados apenas 11% da população brasileira, teremos entre os ingressantes
27% e entre os concluintes, quase 40%.
. 76% são brancos (no dado geral de todos os cursos,
têm-se 70% de brancos).
. 3,2% são negros.
. 35% vieram do ensino médio feito em escola pública;
Assim, podemos saber que a Universidade no Brasil tem
cor, e é branca; a Psicologia tem cor, e é branca; a Universidade é dos mais
ricos, e na Psicologia, também.
Com este quadro, colocamos então mais uma pergunta: o
que importa considerarmos para avaliação da política para a educação superior?
Os jovens com idade para estarem na Universidade não
estão lá. Nem chegaram ainda ao ensino médio, pois, como vimos, temos mais
vagas no ensino superior do que jovens que terminam o ensino médio. Isso faz
com que haja vagas ociosas no ensino superior que, estando em escolas privadas,
em sua maioria, precisam ter seus custos reduzidos para que sobrevivam. E isso,
já sabemos como é feito: com prejuízo da qualidade do ensino.
Os jovens que entram nas escolas superiores nem sempre
conseguem concluir seus cursos, com certeza em virtude das dificuldades para
arcar com os custos envolvidos.
Podemos então concluir, elencando algumas questões:
1. Como garantirmos ingresso e permanência no ensino
superior?
2. Como garantirmos a qualidade deste ensino?
3. Como o ensino superior pode contribuir para a redução da desigualdade
social?
Estas três questões são centrais. Ao avaliarmos qualquer mudança no ensino
superior, devemos estar guiados por, pelo menos, estas questões, que podem ser
traduzidas em princípios: pleno acesso, permanência de todos e qualidade.
A Universidade de qualidade, no Brasil, tem ficado
restrita as camadas ricas. É preciso quebrar esse círculo.
As medidas do governo são polêmicas e podemos,
posteriormente, debater a questão, mas gostaria de indicar alguns pontos.
Acredito que é mesmo necessário e imprescindível
aumentar a verba destinada à educação superior. Com o que se empenha
atualmente, não conseguiremos melhorar o quadro, apenas o manteremos. Portanto,
a questão das verbas torna-se uma das mais importantes. Sem a ampliação de
recursos, a busca das metas postas pelo PNE parece-nos inatingível. Se isso
acontecer, correremos o risco da redução da qualidade. Hoje, gastamos em
educação 3,9% do PIB. Não há dúvida de que é preciso aumentar este índice. Como
ponto inicial, indico a luta pelo financiamento da educação.
Outra questão é o controle da educação. A educação deve
funcionar como um sistema federal. As exigências e critérios que são feitos ao
ensino público devem também ter aplicação no ensino privado. Outro elemento
fundamental de nossa vigilância é a questão da pesquisa e da integração
ensino-pesquisa-extensão. É preciso regulamentar a escola privada, de modo a
pressionar e exigir qualidade.
Claro que um dos temas importantes é a qualificação do
ensino básico, para garantir que os jovens cheguem ao final do ensino médio.
Reduzir a mortalidade escolar em nosso país é prioridade zero.
As condições de trabalho dos professores são também um
elemento importante.
Dar acesso para a camada pobre à Universidade deve ser uma meta levada muito a
sério por todos nós. Eu, particularmente, acho que o PROUNI, como medida
urgente e imediata, possibilita isso, ajudando a mudar o cenário branco e de
classe alta das escolas, em especial da Psicologia.
Não somos ingênuos em achar que a educação superior
possa ser responsável pela transformação das condições desiguais de nosso país,
mas, sem dúvida, a educação superior tem servido para proteger as elites e
mantê-las resguardadas em seu lugar, hierarquicamente superior. Educação é
sinônimo de apropriação de cultura e, portanto, é ferramenta de humanização e
constituição de sujeitos. Um país que tem somente 10% da população entre 18 e
24 anos no ensino superior precisa tomar este aspecto como critério
prioritário. Precisamos colocar nossos jovens no ensino superior! A Psicologia
tem apontado os sentimentos de humilhação e de exclusão que aparecem em
situação de desigualdade social, mostrando como as condições subjetivas são
importantes e devem ser consideradas.
A desigualdade, como processo perverso que empobrece
nosso conjunto humano, precisa ser reduzida, e uma das formas importantes de
superação destes sentimentos/sofrimentos se dá através da escolarização. Uma
educação de qualidade, que ofereça às crianças e jovens conhecimentos para
ampliar sua capacidade de intervenção transformadora na realidade cotidiana,
deve ser obrigatória, porque é direito de todos. Financiamento, controle social
e missão da educação são temas importantes, que devem ser debatidos e estar
atravessados pela questão da desigualdade e dos direitos. Sabemos que o diploma
de formação superior não é garantia de melhores empregos e de melhoria de
condições de vida, mas, do ponto de vista da produção de sujeitos, os
psicólogos sabem muito sobre o fortalecimento pessoal resultante de uma
conquista como a da educação superior. Nesse sentido, se queremos reduzir a
desigualdade social em nosso país, uma das questões importantes torna-se a luta
pela democratização do acesso à educação superior. Nossa busca deve ser pelo
pleno acesso.
Reforma Universitária não é assunto só do campo da
Psicologia, mas a Psicologia precisa enfrentá-lo, fazendo seu debate. A
Psicologia comprometida com a sociedade, com os interesses da maioria da
população, precisa de qual reforma?
E agora, para finalizar, quero tratar especificamente da Psicologia, para falar
um pouco da nossa reforma:
As nossas diretrizes curriculares, depois de anos de
debate, foram aprovadas e estão sendo ainda implementadas. Os cursos estão em
seu segundo ou terceiro ano de implantação.
Quais têm sido os desafios? Vamos a alguns deles:
. A questão da pesquisa.
. A presença da diversidade da Psicologia nos cursos.
. A qualidade dos estágios.
. E o projeto do compromisso social.
As diretrizes curriculares não garantem a presença da
pesquisa nos cursos de Psicologia. É uma tarefa importante divulgarmos a
necessidade da pesquisa nos cursos, para que todos, alunos e professores,
possamos estar, em cada escola onde estivermos, lutando e reivindicando a
possibilidade e a cultura da pesquisa.
A pesquisa não é exatamente uma atividade; igualmente,
não é simplesmente uma atividade de investigação.
Pesquisa é cultura de curiosidade, de inquietude e de
investigação. A Universidade é lugar de pergunta. Ela difere da religião
exatamente neste aspecto. A religião tem certezas e todos devem aderir a elas.
A ciência não: é lugar de dúvida. Por isso, quando terminamos nosso trabalho de
pesquisa já estamos insatisfeitos com ele, pois, no processo de construir
certezas, produzimos dúvidas. Nosso esforço de produzir visibilidade e
inteligibilidade para a realidade à nossa volta leva-nos ao esforço da Ciência.
Poderia nos levar a outro tipo de esforço, mas este da Ciência é um percurso
sem ponto final. É diálogo permanente com a realidade em seu movimento. A
Universidade não pode ser lugar de ensino de certezas, com o risco de ser
tornar uma "igreja". Universidade é lugar de produção de dúvidas, e essa
cultura instala-se quando o espaço é de pesquisa.
Um segundo aspecto é o da diversidade da Psicologia.
Nossas diretrizes não garantem, sozinhas, essa questão. É preciso que estejamos
atentos a isto. A Psicologia é diversa; só se aprende bem Psicologia quando se
convive e se debate a partir dessa diversidade. São diferentes leituras que
devem ser apresentadas e que devem estar em permanente diálogo, pois buscamos
inteligibilidade para a realidade, que se movimenta.
Um outro aspecto é o dos estágios. As diretrizes
ampliaram o espaço dos estágios no currículo, mas é preciso debater o que
estamos entendendo por estágios. Um aprender a fazer? É a isso que se limita
nossa concepção de estágio?
Estágio deve ser uma oportunidade de termos um contato
problematizador com a realidade, a partir de nossos saberes e fazeres técnicos.
Temos, muitas vezes, feito um movimento invertido: aprendemos as técnicas e
depois vamos para os estágios treinar a aplicação delas. Mas não devemos deixar
que os estágios restrinjam-se a isso. Deveremos ser capazes de fazer dos
estágios e das supervisões espaços de debate e de avaliação de nosso
conhecimento. Não devemos nunca tomar a realidade como algo que não serviu para
nós aprendermos, mas, ao contrário, deveremos tomar nossos saberes como não
adequados para a realidade que se apresentou.
É preciso, aqui, que se reconheça que as diretrizes
trouxeram excelente ajuda para que os estágios se diversificassem na
Psicologia. Claro que isso não é uma conquista das diretrizes, mas elas
reconheceram esse avanço e contribuíram para a transformação da realidade de
estágio de nossos cursos.
Por fim, o projeto do compromisso social. Nossas escolas
têm mantido uma tradição da Psicologia de se manter de costas para a realidade
social. Temos pensado o sujeito a partir de concepções naturalizadoras que
imaginam sempre uma estrutura e um dinamismo psíquico que se auto produz e se
move por si só. A própria idéia de desenvolvimento tem carregado em si esta
concepção: um sujeito dotado de potencialidades que, quando devidamente
estimuladas, tornam-se capacidades. Estas concepções naturalizadoras têm nos
dispensado
de pensar a realidade social na qual os sujeitos estão inseridos. Toda essa
tradição tem nos distanciado da possibilidade de contribuirmos, a partir da
Psicologia, com a transformação social, com a construção de condições dignas de
vida. É preciso rompermos com esta tradição, para buscarmos uma formação que
pense o sujeito inserido em sua realidade social e que, portanto, crie as
condições para a formação de um profissional compromissado com as urgências da
sociedade brasileira.
Assim, vou terminando. Procurei refletir e me posicionar
sobre uma Reforma Universitária guiada pelo acesso total e pela permanência na
Universidade de jovens das camadas pobres da população. Procurei posicionar-me
sobre a reforma dos cursos de Psicologia, defendendo uma formação para o
compromisso social.
(2) Texto apresentado no XIVº Encontro Nacional da Associação
Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO), no Rio de Janeiro, 01/novembro de
2007, em mesa organizada pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), com
coordenação da Profa. Roberta Gurgel Azzi, presidente da Associação Brasileira
de Ensino de Psicologia (ABEP).
(3) Dados do Censo apresentados pelo prof. Dilvo
Ristoff, do INEP/ MEC, a partir do Censo educacional de 2005, em conferência
proferida durante o VIº Encontro Nacional da Associação Brasileira de Ensino da
Psicologia (ABEP), 6 a 9 de setembro de 2007, BH/MG
(4) Dados apresentados pelo prof. Dilvo Ristoff, do
INEP/ MEC, a partir do ENADE, em conferência proferida durante o VIº Encontro
Nacional da Associação Brasileira de Ensino da Psicologia (ABEP), 6 a 9 de
setembro de 2007, BH/MG
(5) Dados apresentados pelo prof. Dilvo Ristoff, do
INEP/ MEC, a partir do Plano Nacional de Educação (PNE), em conferência
proferida
no VIº Encontro Nacional da Associação Brasileira de Ensino da Psicologia
(ABEP), 6 a 9 de setembro de 2007, BH/MG
(6) Dados apresentados pelo prof. Dilvo Ristoff, do
INEP/ MEC, a partir do ENADE, no VIº Encontro Nacional da Associação Brasileira
de Ensino da Psicologia (ABEP), 6 a 9 de setembro de 2007, BH/MG
Reforma Universitária, Universidade Nova e o
futuro da Psicologia.
Raquel S. L. Guzzo
Anpepp/ PUC-Campinas
A continuidade do debate sobre a Reforma Universitária e
a Psicologia, pela iniciativa do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e da
Associação Brasileira de Ensino de Psicologia (ABEP), toma sua forma, dessa
vez, na mesa-redonda constituída dentro do Congresso Nacional da Associação
Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO), com o título: Reforma Universitária,
Universidade Nova e o Futuro da Psicologia. Na verdade, o sentido deste debate
em espaços como este tem como proposta uma reflexão em dois níveis - o que
significa a Reforma Universitária, na atual conjuntura em que vive o país, e
como esta política afeta a formação, a pesquisa e o exercício profissional
nessa área?
A Psicologia, enquanto área de atuação e ciência, tem
buscado, ainda que de forma muito incipiente, discutir essa temática complexa,
que envolve elementos políticos amplos. Por isso, sem ter a pretensão de
esgotar esse assunto, minha participação restringe-se a apontar dois objetivos:
1) destacar as faces da reforma e pensar como isso tem afetado ou pode afetar a
formação em Psicologia, especialmente. 2) problematizar como as mudanças
propostas pela reforma têm atingido a formação profissional e a pesquisa. Penso
na importância de deflagrarmos uma discussão que vá tomando corpo no bojo de
nossa área, afinal, somos muitos e temos um papel importante na construção da
sociedade em que vivemos.
O objetivo deste artigo, portanto, é discutir a Reforma Universitária dentro do
contexto social e político do país; refletir sobre as diferentes iniciativas
(as faces da reforma) apresentadas à comunidade universitária, como se fossem
independentes uma das outras, e suas conseqüências; e associar a implementação
da RU e seus impactos na formação do Psicólogo Brasileiro.
Quero começar por um questionamento sobre a própria
condição na qual vivemos essa reforma: quando ela surge? Para que surge? E por
que está parada no Congresso (Mota, 2007), enquanto seus diferentes projetos -
as suas diversas faces - estão em pleno desenvolvimento? Por que estamos
debatendo a proposta de reformar
o ensino superior brasileiro somente quatro anos depois deste assunto
configurar na pauta dos debates nacionais?
Estas são questões que precisam ser clarificadas, porque
há elementos dessa reforma que vão de encontro a um movimento que a Psicologia,
enquanto área, vem fazendo há décadas para atualizar e comprometer a sua
formação e produção acadêmica, sobretudo no envolvimento com a formulação das
Diretrizes Curriculares que ainda não foram totalmente compreendidas e
implementadas.
Neste artigo, pretendo apresentar elementos para a
compreensão do sentido e das dimensões da reforma, alguns
indicadores sobre a vida no capitalismo e apontamentos para pensarmos a
Psicologia enquanto Profissão e Ciência. Além disso, pretendo trazer alguns
dados sobre as circunstâncias objetivas que determinam a forma de apresentação
dessa proposta a todos nós.
Vivemos numa sociedade de exploração de homens sobre homens, de exclusão
crescente e de dominação dos mais fortes sobre os mais fracos. Uma sociedade
organizada para produzir a contradição da miséria na abundância, a violência no
discurso da paz e a competência e produção de desigualdades e injustiças
evidenciadas
por diferentes indicadores oficiais, sobretudo os de escolaridade e renda.
Trago aqui, novamente, alguns elementos já apresentados em fala anterior, para
que fique claro o cenário em que proponho as minhas reflexões.
Vivemos procurando as migalhas que sobram daqueles que
detêm o poder de pensar, construir e alimentar o capital que dinamiza as
relações humanas. As políticas de bem-estar social, que apregoam o direito
igual para todos e a idéia de que a vida se constrói com cada vez mais
crescentes benefícios sociais e materiais esgotaram-
se, pelo simples fato de que é impossível, nesse sistema, a emancipação humana!
O bem-estar social, tal como proposto, é impossível pra todos!
A sociedade capitalista caracteriza, de forma muito clara, a quem se destina o
"bem- estar" e a quem só resta a exploração e o sofrimento como condição
cotidiana de vida. As contradições são aparentes - uns poucos desfrutando de
conforto e abundância e a maioria sofrendo para sobreviver.
E, partindo do princípio de que a Educação seja um
direito inalienável de todos os seres humanos viventes nessa forma social e
nesse tempo histórico, tomo as palavras do Andes-SN para enfatizar um elemento
importante de análise de todo este contexto de discussão:
" Todos que possuem um rosto humano têm o direito à
Educação Pública e gratuita e de alta qualidade em todos os níveis. Mais do que
um intangível bem público, a educação é um dever do Estado. É
inadmissível...que o mercado seja convocado pelo governo federal para garantir
este direito fundamental...Apenas 9 em cada 100 jovens de 18 a 23 anos estão
matriculados no Ensino superior. Destes, menos de 3 estão em Instituições
Públicas - por meio de políticas públicas estatais" ( ANDES-SN, 2004, p.5)
Avanços e Retrocessos, o sentido das Reformas:
São impossíveis de serem escondidas, mas não de serem
mascaradas pelas estatísticas oficiais, as imensas contradições do sistema
educacional brasileiro: baixas taxas de escolaridade entre os jovens, grande
estrangulamento do acesso ao ensino superior, grandes diferenças nas práticas
educativas e na permanência e durabilidade das atividades nos sistemas público
e privado. Basta pensarmos que, enquanto 97,8% da população de crianças
brasileiras matricula-se no ensino fundamental, menos de 11% consegue chegar ao
ensino superior. Isso demonstra que, no caminho da vida, cerca de 90% de
brasileiros ficam à beira da estrada em seu processo de desenvolvimento,
buscando, por sua conta, a sobrevivência em uma sociedade que, cada vez mais,
exige formação. Estes dados, interpretados a partir das estatísticas oficiais,
têm reflexos no exercício profissional, visto que oferecem uma visão da
realidade a partir de uma totalidade quase nunca mostrada ou interpretada nos
manuais e contextos de formação. A Psicologia ainda se mantém presa a uma
estrutura social que perpetua essa condição de exclusão.
Por essa razão, ao falarmos em Reforma Universitária,
não podemos deixar de mencionar que reformar não é construir o novo, é manter a
estrutura e mudar os detalhes. Mesmo em oposição ao que viemos construindo na
Psicologia há anos, essa reforma coloca-nos como reféns de um projeto de país
contra o qual lutamos - queremos um país justo, igualitário, sem dominação de
alguns poderosos sobre os mais fracos, sem violência reativa que apareça pela
desigualdade social contundente e regido por uma diferente organização social.
A construção de um país e de seu projeto social e político se dá no âmbito de
forças políticas e de disputa de poder, das quais nós somos parte enquanto
sujeitos, enquanto entidades, enquanto professores e estudantes!
O que está em jogo nessa construção é a aplicação de
projetos para o país que divergem em sua concepção e implementação. Não há como
escondermos isso. Buscamos a democratização da Educação, da Saúde, da Cultura,
enfim, temos todos o desejo de contrariar o princípio excludente e opressor de
uma sociedade capitalista.
No entanto, nossas bandeiras e nossa forma de lutar por
elas passam necessariamente pelo conhecimento, construção e implementação de
projetos políticos para o país, que por sua vez, antepõem-se na disputa dos
caminhos e dos fins para a construção de uma sociedade diferente. A concepção
de Educação como direito inalienável nos traz uma imensa contradição - a
Psicologia está mais e cada vez mais presente nas instituições de ensino
superior (IES) privadas.
Reivindicar a realização de melhorias em todas estas
áreas, para benefícios de todos, é algo impossível nos marcos do sistema
capitalista. A base da sociedade capitalista é a divisão desigual da riqueza.
Tomemos a privatização da Educação, por exemplo. Os interesses de quem produz a
riqueza e dos que detêm os meios de produção são antagônicos e inconciliáveis.
Há, portanto, o conflito entre uma classe social, colocado de forma muito
evidente, que sobrevive da exploração de outra, que é oprimida.
Nesse marco há, destarte, uma diferença crucial entre os
que defendem a reivindicação de políticas para o atendimento das necessidades
sociais da população sem a superação do modelo capitalista, que estrutura os
limites e as possibilidades de desenvolvimento das ações sociais, e aqueles que
procuram construir um programa que aponta para a necessidade de uma revolução
social e econômica para a conquista das condições mais justas e dignas de vida
para a maioria.
A vida no capitalismo, contradições insuperadas.
Sem me aprofundar, afirmo que há indicadores que
demonstram a evidência de um regime que não superou as condições de uma vida
melhor para todos, apesar das promessas e de sua hegemonia no mundo. No início
do século XXI, um quinto da população mundial ainda vive na absoluta pobreza,
com menos de um dólar por dia, enquanto os bens das 200 pessoas mais ricas são
maiores do que os ganhos conjuntos de 2,4 milhões das pessoas mais pobres do
planeta. Apesar disso, a prosperidade cresceu nos últimos 100 anos mais do que
no resto da história da humanidade. Já existem, portanto, as bases para um
progresso jamais imaginado e sobre as quais as contradições do sistema já
poderiam ter sido superadas. Então, por que isso não acontece? Uma das razões é
que se torna impossível a construção de um mundo efetivamente igualitário e
livre sob a lógica do capital que conduz a uma desigualdade insuperável. Isso
faz com que os capitalistas, por meio do controle do aparato judiciário,
militar, da educação e da mídia, estejam sempre procurando evitar que
trabalhadores e jovens tirem a conclusão de que o capitalismo não pode ser
transformado.
O combate ao modelo capitalista está colocado para o
atendimento das necessidades sociais. As reivindicações mais diretas e visíveis
da maioria da população são impossíveis de serem atingidas sem um progressivo
enfrentamento a este sistema e sem uma superação que deve ser construída como
instrumento capaz de ajudar nessa tarefa. É preciso, portanto, buscar a
superação das estratégias reformistas, substituindo-as por uma ofensiva que dê
conta de outra forma de sociabilidade fora desta lógica - o socialismo.
É sobre esse marco que quero discutir mudanças
necessárias, inseridas num período em que a Reforma Universitária, mesmo
estacionada no Congresso, afeta-nos por meio de suas diferentes faces.
Educação como mercadoria e não como direito.
É preciso destacar a lógica mercantilista que predomina
hoje no país - educação não é dever do estado e direito de todos. Assim fosse,
não existiriam dois sistemas educacionais - o público e o privado. Assim fosse,
as Universidades Públicas teriam suas vagas ampliadas e seriam espaço de
desenvolvimento e formação de todos os brasileiros e brasileiras que desejassem
estudar e se profissionalizar. Assim fosse, estudantes pobres, negros e índios
teriam livre acesso e igualdade de condições para ingressarem no ensino
superior e nele permanecerem.
Educação não é direito, nesta lógica neoliberal.
Educação é mercadoria e, como tal, deve ser administrada e gerida. Por isso, a
Reforma Universitária implementa-se procurando reorganizar o ensino superior em
torno das questões do financiamento, da autonomia universitária, da
democratização do acesso e permanência, da avaliação institucional e dos
conteúdos curriculares ministrados para a formação dos profissionais, da
produção de conhecimento e de tecnologia e das patentes nacionais.
Trata-se de uma agenda neoliberal pautada pelas
orientações da cartilha do Banco Mundial, que destaca: governos neoliberais,
agenda de modernização, reformas em todos os setores e níveis e mudanças
gerenciais. Todos os países passam pelas mesmas determinações, sem que a
estrutura do capital se modifique.
Por essa forma de pensar, reformar significa uma
adaptação ao que já existe, porém, nenhuma possibilidade de mudança estrutural
está proposta, a estrutura continua a mesma, só mudam detalhes que contribuem
para uma melhor adaptação e manutenção do status quo. Transformar, por outro
lado, significa construir o novo, com um horizonte que se traduz, antes de
tudo, por uma outra forma de viver em sociedade.
As diferentes faces da Reforma
Nesse referencial, as reformas são fundamentadas: na
diminuição da participação do Estado no ensino; na privatização; e na ampliação
do acesso, não pela via da educação gratuita e pública, mas pela via da criação
de Universidades de ensino mais massificadas e de Universidades de pesquisa nas
quais a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão esteja assegurada
somente para uma elite que, por condições diferenciadas de estudo desde o
início de sua escolaridade, passa pelo gargalo dos vestibulares ou processos
seletivos.
A Reforma Universitária vem sendo implementada com várias faces e cada uma
delas tem uma missão importante - a de aplicar ao direito inalienável dos
brasileiros de se desenvolver pela via do estudo e da profissão a lei do
mercado!
As diferentes dimensões da reforma têm conseqüências
específicas para nossa formação e o exercício profissional.
Por isso, em uma breve análise de seus impactos em nossa
área, gostaria de trazer alguns de seus ins-trumentos e comentar suas relações
com a Psicologia. É um início de um debate que deve ser aprofundado em outras
instâncias e espaços de luta. A Reforma Universitária tem, portanto, o objetivo
de privatizar o público, mercantilizar o ensino e se contrapor à autonomia
universitária.
a) As Parcerias Público Privadas ( PPP ), lei 11079/04 -
esta é a forma de privatização de diferentes instâncias e espaços sociais, que
se esconde atrás do discurso de ampliação do espectro de atuação governamental
para a implementação do compromisso social. A conseqüência, para nós, é ver o
trabalho do psicólogo cada vez mais precarizado e em espaços de menos
relevância para a transformação social.
b) O PROUNI, lei 11096/05, que se propõe a ampliar o
acesso do jovem pobre no ensino superior, mas, no entanto, aumenta a presença
dos estudantes em escolas privadas, com qualidade de ensino comprometida. Isso
interfere, de forma aterrorizante, na vida, na permanência dos estudantes e no
processo de formação no ensino superior. Essa realidade, na qual se inserem a
maioria dos cursos de Psicologia do país, desvela uma contradição imensa - o
desvio pequeno-burguês da profissão, que não incorpora em sua teoria e prática
o recorte de classe. A experiência dos estudantes do PROUNI nos cursos da
Psicologia pode falar a favor dessa afirmação. Com a presença desses
estudantes, o curso de Psicologia deixa em evidência a ausência do compromisso
com a maioria da população, seja em sua prática profissional, seja em seus
conteúdos teóricos.
c) Lei do incentivo a inovação e pesquisa científica e
tecnológica - lei 10973/04, que privilegia e financia a produção voltada para o
mercado, e não a que estuda o desenvolvimento do ser humano e as conseqüências,
para sua saúde física e psicológica, de sua inserção em uma sociedade opulenta,
opressora, excludente e violenta. Mesmo com um significativo avanço na alocação
de recursos para Ciências Humanas e Sociais, ainda há o espectro de que as
produções científicas devem atender somente ao desenvolvimento tecnológico do
país, criando um grande fosso entre os avanços da tecnologia e inovação e a
formação de recursos humanos.
d) SINAES - lei 10861/04 e PL 7200/06, que avaliam as
Universidades com parâmetros ainda discutíveis, impondo um programa de formação
distante das necessidades da maioria da população e dificultando o acesso e a
permanência de estudantes pobres nos centros tecnológicos e de "excelência".
Muito se tem discutido sobre os parâmetros utilizados para a avaliação das
Universidades e Centros de ensino superior e, em grande parte, a orientação de
comissões especiais das diversas áreas para uma melhor qualificação desse
processo fica relegada à implantação de um sistema mais econômico, mais ágil e
mais superficial.
e) A Universidade nova - trata-se de um projeto de
reestruturação da Universidade brasileira pautado especialmente sobre alguns
fundamentos: a redução do financiamento público; a parceria público-privada; a
celeridade dos estudos e da formação; políticas de pseudo-garantias de acesso;
e uma perfeita maquiagem dos dados que revelam, sobretudo, o aumento do
percentual de jovens com acesso no ensino superior - hoje uma das taxas mais
baixas do mundo. Esse projeto, na análise realizada pelo Andes-SN (2007), toca
pontos importantes que devem ter grandes impactos na formação profissional em
diversas áreas do conhecimento, em especial a Psicologia. Por sua vez, a
Psicologia, durante os últimos anos, vem se pautando por uma discussão nacional
de melhoria da qualidade de sua formação, notadamente pela apresentação recente
das Diretrizes Curriculares, ainda não totalmente implementadas nos cursos de
formação pelo país. Os pontos de destaque são: alteração na relação número de
estudantes X número de professores, com aumento do número de matriculados
por sala e diminuição do número dos professores; junção de cursos e
disciplinas; oferecimento de bacharelados interdisciplinares, sem clareza de
critérios ou elementos de terminalidade, após três anos, em quatro áreas -
Artes, Humanidades, Ciências e Tecnologia -, como ingresso obrigatório ao
ensino superior; flexibilização dos currículos acadêmicos e do sistema de
títulos, com a proposta de uma graduação não contrária à profissionalização
precoce, dificultando, no entanto, o acesso da maioria aos cursos
profissionalizantes; por último, o financiamento condicionado aos planos de
reestruturação exigidos e controlados pelo MEC.
Com problemas de financiamento decorrentes da aplicação
de recursos financeiros no ensino superior abaixo dos índices indicados pela
Constituição Federal, a reestruturação da Universidade corre riscos, um deles,
a perda de qualidade da formação. Se, hoje, a maioria dos psicólogos vem sendo
formada em salas cheias e sem a infra-estrutura necessária para o
desenvolvimento de pesquisa ou atividades de extensão e formação em estágios
profissionalizantes, a situação da profissão sofrerá um retrocesso diante das
conquistas previstas nas Diretrizes Curriculares.
Se a reforma da Universidade desenvolve-se fora dos
parâmetros recém-apresentados pelas diretrizes, de que psicólogos estaremos
falando?
Há muito ainda o que se debater e aprofundar. Porém, é
preciso que saibamos reconhecer para que rumo está sendo direcionado esse
projeto de país, que responde de forma rápida aos chamados neoliberais vindos
do modelo americano - difuso em sua base e super-especializado e fragmentado em
níveis posteriores ao da graduação.
Referencias Bibliográficas
Andes-SN -Grupo de trabalho de Política Educacional (2004).
A contra-reforma da Educação Superior. Brasília:
GTPE/Andes-SN, p.5
Andes-SN - Grupo de Trabalho de Política Educacional ( 2007) Universidade Nova,
a face oculta da contra- reforma da universitária. Brasília: GTPE - Março. 1-12
http://www1.worldbank.org/education/lifelong_learning/governance_system.asp
Mota, R( 2007) Congresso e Reforma Universitária. Jornal da Ciência.
Ano XXI, no.601, p.11